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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

“ESTRADA DA COMPANHIA” OU “POMBALINA”

Percorrendo Gondar numa extensão de mais de 5 km, a “estrada da companhia”, também designada de “pombalina”, ligando, por Amarante, Mesão Frio ao Porto, foi mandada construir pela Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, criada em 1756. Daí que, em nosso entender, a designação mais apropriada seja "Estrada da Companhia" e não "Estrada Pombalina".

Construções de apoio aos viajantes em Cavalinho - Gondar

A criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 1756, por D. José I sob os auspícios do Marquês de Pombal, cria a 1.ª região vinícola demarcada do mundo e promove um desenvolvimento sem precedentes da região duriense. Assim, e já que o escoamento dos seus vinhos se fazia, em grande parte, pelos cais do Porto e de Gaia, era necessário estabelecer ligações entre a região duriense e estas cidades. Entre as obras realizadas, destaco as referentes à navegabilidade do Douro, a construção da estrada entre Mesão Frio e o Porto e a linha ferroviária do Douro que chegou à Régua em 1879.

Estrada da "Companhia" em Padronelo - Amarante

“E embora já existisse uma estrada que interligava a cidade do Porto com Amarante, ela detinha-se quando deparava com o rio Tâmega. Havia, pois, que prolongar esta via, interligando Amarante com a Régua, sede da Real Companhia pombalina.
Foi neste contexto que surgiu o projeto de uma estrada que fazia a interligação da vila de Mesão Frio e Amarante. Com um traçado extremamente sinuoso, aproveitando numa fase inicial o vale do rio Teixeira, ascende ao Alto de Quintela, onde inicia a descida até ao rio Tâmega. Aí, após a construção da ponte (1782-1790) que substitui a anterior ponte de S. Gonçalo que tinha ruído no ano de 1763, concretiza-se a tão ansiada ligação com a cidade invicta”.(1)

Estrada da "Companhia" na Reboreda

A construção da dita estrada realizou-se sob projecto e direcção do engenheiro francês de pontes e calçadas Joseph Auffdiener e teve um pavimento, revolucionário para a época, criado pelo engenheiro escocês Mc Adam, vulgarmente designado de “macadame”. Consistia em várias camadas de brita (pedra) apertadas por um cilindro, o que permitia a drenagem das águas e um piso enxuto. Com a colocação recente de um tapete betuminoso, o anterior piso desapareceu por completo.
Importa ainda referir que para financiar esta e outras obras foi lançado, por alvará de 13 de Dezembro de 1788, um imposto sobre o transporte e venda dos vinhos e aguardentes do Douro, o “imposto das Estradas do Douro”. O mesmo alvará encarregava a Companhia da construção das estradas do Alto Douro. Em 25 de Fevereiro de 1789 foi criada a"Junta e Intendência das Estradas e Caminhos do Douro", começando desde logo a cobrar-se os impostos estabelecidos, assim como a construção das estradas.(2)
Aquando da II Invasão Francesa, o troço entre Mesão Frio e Amarante já estava concluído, tendo havido escaramuças entre as tropas napoleónicas e as milícias portuguesas em Padrões da Teixeira (1808 e 1809) e na Reboreda, Cabanas e Palmazões (1809).
Miguel Moreira
ANEXO: Texto do professor catedrático da U.P., Fernando de Sousa:

"Por alvará de 13 de Dezembro de 1788, a Companhia foi encarregada da construção das estradas do Alto Douro, a fim de beneficiar a agricultura e comércio dos vinhos da região...
A Junta e Intendência das Estradas e Caminhos do Douro foi criada em 25 de Fevereiro de 1789, começando desde logo a cobrar-se os impostos estabelecidos para tal fim, assim como a construção das estradas, sob a direcção do engenheiro francês de pontes e calçadas José Auffdiener; numerosas estradas foram então construídas sob a inspecção da Companhia, como a estrada Porto-Mesão Frio-Régua...".
Sousa, Fernando de, "O Legado da Real Companhia Velha ao Alto Douro e a Portugal (1756-2006), Edições Afrontamento, Porto, 2008, pág. 23.

(1)- Pina, Maria Helena Mesquita, “A Região Duriense: Alguns Apontamentos sobre a sua Rede de Transportes (séc.s XVII-XIX), Instituto de Geografia da Faculdade de Letras da U.P.
(2)- Sousa, Fernando de, "A Real Companhia Velha, 1756-2006", Porto, 2006, pp. 114-119.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CENTRO CÍVICO E PAROQUIAL DE GONDAR


Durante largos séculos, o lugar do Mosteiro, com o seu cenóbio de freiras bentas e respetiva igreja, foi o centro religioso e cívico de Gondar. Porém, a partir de 1885, com a inauguração do novo cemitério da freguesia, Gondar começa a adquirir uma nova centralidade.


Centro Cívico e Paroquial de Gondar

Até 1904, data em que foram concluídas as obras da atual igreja, a igreja paroquial continuou a ser a velha igreja românica do extinto mosteiro, secularizada em 1455, por ordem do bispo D. Fernando Guerra. Todavia, antes da inauguração da nova igreja, já muitos dos atos religiosos  se realizavam na chamada “igreja do cemitério”, que corresponde à capela-mor da atual igreja, ou na capela de Santo Amaro, em Ovelhinha, com uma localização mais central.


Centro Cívico e Paroquial de Gondar
Junta de Freguesia de Gondar - Amarante

Assim, paulatinamente, Gondar vai adquirindo uma nova centralidade. Primeiro, com a construção do cemitério e da nova igreja paroquial; mais tarde, com a construção do Centro Pastoral, nos anos 60 do século passado, das instalações da Junta de Freguesia, em 1982, e, mais recentemente, do Centro Cívico.


Centro Paroquial de Gondar - Amarante
Centro Cívico de Gondar - Amarante

Embora não dispondo de uma praça que lhe daria outra dignidade e visibilidade, o atual Centro Cívico e Paroquial, com boas acessibilidades e uma localização central na freguesia, orgulha todos os gondarenses e não o minimiza em nada perante os seus congéneres das freguesias vizinhas.

Miguel Moreira 

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DA SAÍDA


Integrada num singular conjunto arquitetónico que inclui uma bonita habitação de cariz senhorial, a capela de Santo António da Saída, passando quase despercebida a quem transita pela estrada municipal que conduz à Igreja do Mosteiro de Gondar, merece-nos uma cuidada visita.

Casa senhorial da Saída (Gondar - Amarante)

Capela de Santo António da Saída (Gondar - Amarante)

Retábulo da capela de Santo António da Saída
Com uma fachada barroca, é, contudo, o retábulo do seu altar que mais nos surpreende. Este, também com decoração barroca sobre um fundo marmoreado em tons de azul e rosa, ostenta no seu nicho central uma bela imagem de Santo António que nos encanta pelo seu olhar sereno e terno, dirigido ao menino.
As “Memórias Paroquiais de Gondar”, já em 1758, referenciavam esta capela, nos seguintes termos: “Tem outra (capela) no lugar da Salida com invocaçom do senhor Santo António que mandou eregir o Padre Gonçallo Nunes Pereira Valente, vigário de Sam Martinho de Carvalho de Rei”, o que atesta a sua antiguidade.
O conjunto arquitetónico, constituído pela habitação, capela e anexos, prima pela sua localização privilegiada sobranceira ao rio Ovelha e pela envolvência de vinhedos primorosamente cuidados que lhe conferem um certo romantismo que o verde das trepadeiras, revestindo a quase totalidade das fachadas, vem acentuar.

Miguel Moreira

terça-feira, 8 de agosto de 2017

OS “GUNDARES”


Excerto da obra "História Antiga e Moderna da Sempre Leal e Antiquíssima Villa de Amarante", editada em Londres, 1814, pp. 17 e 18:
“... nomearei em primeiro lugar D. Mem de Gundar, em que o Nobiliário do Conde D. Pedro principia o appelido desta família, e faz tronco da dos Mottas, o qual foi natural das Astúrias, veio com o Conde D. Henrique a Portugal, cavalleiro mui bom e honrado, casou com huma domna de Galliza, que havia nome D. Goda.


Nobiliário do Conde D. Pedro (Gundares)

D. Mem foi tronco, de Gundares, e Mottas, fundou o Mosteiro de Gundar de Monjas Bentas, o de Lufrey, e o de Santa Maria Magdalena de Gestaço, sendo a Abbadeça do de Gundar a Prelada de todos trez (...). 


Igreja do Mosteiro de Gondar - Amarante

Igreja Românica de Lufrei - Amarante
Jaz D. Mem de Gundar na Igreja de Tolloens.

Igreja do Mosteiro de Telões - Amarante


... foi sua bis, ou terceira neta D. Lopa, ou Loba Mendes, que fez a torre de Mormelheiro, e chamou na falta de successão seu sobrinho Fernão de Souza do Mogadouro, de quem descendem os Senhores de Gouvea, Condes do Redondo, Marquezes de Borba.

Paço de Dona Loba em Mormilheiro - Padronelo

Paço dos Condes do Redondo 

Senhores daquella torre, commendadores daqueles Mosteiros, de que seus ascendentes forão fundadores, e mais da freguesia de Carvalho de Rey que anda unida a commenda, e de muitas mais propriedades, quintas, e foros nestes Concelhos, e Província, algumas com o nome de Torre, e Paço, como são o da torre antiquíssima de Mormilheiro; do Paço da rua de Gouvea na embocadura da ponte desta villa; do Paço de S. Vicenso em Gestaço; do Solar dos Souzas em S. Fins do Torno, nas margens do rio Souza, &c.” (1)

(1)- P. F. de A. C. de M., “HISTÓRIA ANTIGA E MODERNA DA SEMPRE LEAL E ANTIQUÍSSIMA VILLA DE AMARANTE”, Londres, 1814, pp. 17 e 18.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

CONSTRUÇÃO DA EN 15 
(troço de Gondar)

Uma Portaria do Ministro das Obras Públicas, de Maio de 1862, determinava a construção da nova “Estrada Real”, ligando a cidade do Porto a Bragança. No troço compreendido entre Amarante e Vila Real, atravessando a Serra do Marão, essa nova via surgia como alternativa à “velha” Estrada Real que, de Amarante, seguia pela Feitoria, Costa Grande, Lufrei, Marancinho, Sanche e Aboadela, rumo a Vila Real.

EN 15 (Gondar - Amarante)

Nesse mesmo ano de 1862, deliberou a Câmara de Amarante oferecer para a feitura da nova estrada, a expropriação dos terrenos incultos tanto baldios como particulares cujos donos “declaravam que os cediam gratuitamente”. Foi, nesse sentido, nomeada uma Comissão para tratar das expropriações a fazer-se desde “Padronelo para cima…” (Sessão da Câmara de 15.5.1863).
Por sua vez, o Diretor das Obras Públicas do Distrito de Vila Real declarava, em 14 de Outubro de 1863, que se achavam adiantados os trabalhos do projecto do lanço da estrada, compreendido entre Padronelo e S. Vicenço, rogando à Câmara “se dignasse diser quaes os donativos que tencionava oferecer ao Governo para auxiliar a construção do dito lanço…”. (1) Em resposta, a Câmara deliberou “que se desse o donativo de seis centos mil reis para auxiliar a expropriação dos terrenos compreendidos no referido lanço…”, apesar de haver concorrido, como já se afirmou, com todos os terrenos baldios e maninhos indispensáveis, dentro dos limites do Concelho. (1)

Ponte de Larim (Gondar - Amarante)

Uma inscrição à entrada da ponte de Larim, sobre o rio Ovelha, assinala o ano de 1867, data em que foi concluído o alargamento do tabuleiro da ponte e, certamente, o da conclusão das obras da nova Estrada Real. Gondar passava a estar no coração das ligações rodoviárias do litoral para o interior transmontano.


(1)    – Cardoso, António, “Amarante em meados do séc. XIX: Obras Públicas, Arquitetura e Urbanismo”, in Actas do II Congresso Histórico de Amarante, vol. II, I Tomo, pp. 56-57.

quarta-feira, 19 de julho de 2017


"POLICROMIAS"


Em Gondar, 
a arte anda pelas ruas!


Moinhos do Salto (Gondar)


Porta  (Lugar das Chedas - Gondar)

Ponte e moinho da Casa do Ribeiro - Ovelhinha (Gondar)

Estendal em Ovelhinha - Gondar

Espigueiro (Vilela - Gondar)

Pintura mural (Igreja Românica de Gondar)

Soenga (Vila Seca - Gondar) - Foto de Mariana Sá


Uma ideia "Mem Gundar"
Recolha e selecção: Miguel Moreira





quinta-feira, 13 de julho de 2017

A MINHA ALEGRE CASINHA

Quem não se recorda da canção dos “Xutos” ?

“As saudades que eu já tinha
Da minha alegre casinha
Tão modesta quanto eu.
Meu deus como é bom morar
Modesto primeiro andar
A contar vindo do céu”.

- Boa tarde, posso fotografar a sua varanda? Pergunto eu.
- Então não pode! Respondeu, prontamente e com um sorriso, o sr. Artur.

Casa rural (lugar das Chedas - Gondar)

Sempre que por ali passava, reparava na varanda e, pela sua beleza e rusticidade, apetecia-me fotografá-la. Desta vez, o seu inquilino encontrava-se debruçado sobre a rua.
- Suba, disse-me ele.
Notei que precisava de companhia e eu, sem hesitar, subi.



- Como se chama?
- Artur. Não viu o meu nome na porta?
Sim, o seu nome estava escrito na porta. “A-r t-u-r D-o-s A-n j-o-s”. Que beleza de caligrafia!



Estivemos ali, a cavaquear, cerca de uma hora. Uma conversa como há muito não tinha: com um homem simples, causticado pela vida, com tantas histórias para contar. Um homem agradecido: agradecido à JFG que lhe fez as obras na casa; ao “Bem Estar” que lhe fornece, diariamente, as refeições; aos amigos que lhe vão dando alguns bens de que já não necessitam (até um micro-ondas que ele não sabe bem para que serve e como funciona!).
Disse-me que, no dia seguinte, ia ao “Bem Estar” cortar o cabelo e fazer a barba. Também ia  tomar o seu banho quente. O prof. Toninho, por quem nutre uma incomensurável admiração, tinha-lhe dito que tinha de ir.



Despedímo-nos, e o sr Artur lá continuou na sua “alegre casinha”.
Prometi continuarmos a conversa. Assim o farei.
Há dias em que a vida tem mais encanto! Este foi um deles.

Miguel Moreira