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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ANTÓNIO PIMENTEL
UM DIPLOMATA DE GONDAR NA CORTE SUECA 

Em 1653, em homenagem ao Cavaleiro Fidalgo e diplomata gondarense António Pimentel,
é instituída pela Rainha Cristina da Suécia a “ORDEM DO AMARANTE”. 

"Casa do Ribeiro" - Ovelhinha (Gondar)

Natural de Ovelhinha (Gondar), António Pimentel era filho de Gaspar dos Reis Pimentel, proprietário da Casa do Ribeiro e escrivão da Câmara de Gouveia, concelho que confinava com o de Gestaço ao qual Gondar pertencia.
Rainha Cristina da Suécia
Logo após a Restauração de 1640, Portugal procurou uma aproximação diplomática às potências envolvidas na Guerra dos 30 Anos contra a Monarquia espanhola, designadamente a Suécia, e em 26 de Junho de 1641 é assinado o Tratado de Paz entre D. João IV e a Rainha Cristina da Suécia. É neste contexto de procura de apoios internacionais à causa da Independência nacional que aparece em cena António Pimentel, integrando a delegação diplomática de Portugal em Estocolmo.
Consta que António Pimentel e a rainha Cristina nutriam entre si relações de profunda admiração e amizade e que esta, querendo agradar ao diplomata amarantino, numa festa de disfarces, o surpreendeu aparecendo vestida, assim como as restantes damas da corte, com os trajes típicos de pastora do Marão, região de onde era natural António Pimentel.
"Ordem do Amarante"
Foi nesta festa que, segundo consta, a rainha, em homenagem a António Pimentel, instituiu a “Ordem do Amarante”, reservada a um restrito grupo de cavaleiros e donzelas solteiras (única exigência para ser aceite e condecorado) que constituíam o círculo de amizades da soberana. Refira-se que a rainha nunca quis casar e revelou mesmo na sua autobiografia que sentia “uma repulsa indescritível” pelo casamento.
A divisa desta ordem consistia numa jóia de diamantes com dois AA de ouro contrapostos dentro de uma coroa de louros e uma fita na qual estava bordado a ouro: “Doce na memória”.
A Ordem não sobreviveu à morte da rainha, mas, em 1760, o rei Gustavo III restabeleceu-a para condecorar apenas as damas da sua corte.
Nota: Não devemos confundir a "Ordem do Amarante" com a “Ordem de Amaranth”, uma Loja Maçónica que aparece no séc. XIX, nos Estados Unidos e Brasil, inspirada nos princípios e na vida da rainha Cristina, apropriando-se, nomeadamente, do nome "Amaranth".

Miguel Moreira

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

OVELHINHA: “ALDEIA DE PORTUGAL”

Ovelhinha faz jus ao seu estatuto de “Aldeia de Portugal”. Como aldeia preservada sabe manter a sua marca identitária, a sua tipicidade, a ruralidade, a autenticidade dos seus costumes e tradições. É isso que a diferencia das outras e lhe confere a distinção que merece e que muitas outras gostariam de ter.

Ovelhinha - Gondar

A fotografia que publicamos ilustra na perfeição o que acabamos de afirmar. É uma mostra do quotidiano de Ovelhinha na sua forma mais pura e genuina, diria mesmo poética. É um desafio aos sentidos que o olhar do fotógrafo soube captar e registar na perfeição.

Miguel Moreira (texto)
Amaranta Soares Teixeira (fotografia)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O CALVÁRIO DE VILELA

Calvário era o nome da colina onde Jesus Cristo foi crucificado. Até lá chegar, carregando a sua própria cruz, Cristo teve de percorrer um íngreme e longo caminho que ficou conhecido como “via crucis” ou “via sacra”. Segundo a prática católica este percurso é constituído por catorze “passos” ou “estações” que recordam os momentos mais marcantes desse caminho.
A Igreja Católica, no sentido de reviver os passos da Paixão de Cristo, construiu, sobretudo no norte de Portugal, monumentos que tentam imitar o Calvário e a “via crucis”. Na semana Santa ou em momentos de grande aflição, os fiéis percorrem este percurso, parando nas diversas estações onde refletem sobre os vários “passos” do sofrimento de Cristo. É o caso do Calvário de Vilela.

Calvário de Vilela - Gondar

Na maior parte dos casos, estes monumentos eram construídos na encosta de uma colina, ao longo da qual, espaçadas de forma regular, eram colocadas catorze cruzes, tantas quantas as estações da Paixão de Cristo. Na última estação ou, em alguns casos, na 12.ª - "Jesus é morto na cruz", eram colocadas três cruzes: a de Cristo, ao centro, ladeada pelas do bom e do mau ladrões.
Capela de S. João Batista (Vilela - Gondar)
No caso de Vilela, julga-se que a Via Sacra se iniciava no cruzeiro que se encontra adossado à capela de S. João Batista, pertença da Casa da Barroca, e terminava no Monte do Calvário, designação que o local ainda mantém. De toda a construção apenas restam as cruzes da Capela e a do Calvário e algumas bases nas quais eram apoiadas as cruzes. As restantes terão sido pilhadas por particulares, desconhecendo-se o seu paradeiro.
Quanto à sua datação, esta não se torna fácil devido à forma tosca e atípica da cruz do Calvário que não nos permite situá-la numa época determinada. No entanto, porque estas construções e as cerimónias da Via Sacra eram da responsabilidade da “Confraria do Senhor dos Passos” e esta já existia em Gondar, em 1758, conforme nos é relatado nas “Memórias Paroquiais”, isto leva-nos a situar esta construção na segunda metade do século XVIII ou no século XIX.
Seria bom que o pouco que nos resta deste Património religioso e histórico-cultural fosse devidamente cuidado e acautelado.

Miguel Moreira


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

UM VIADUTO QUE DIVIDE GONDAR

Panorâmica de Gondar - Amarante

Viaduto da A4 em Gondar - Amarante

Os fatores geomorfológicos são determinantes na definição do território que constitui uma localidade ou uma região. No caso de Gondar, esse território é enquadrado por dois cursos de água, os rios Ovelha e Carneiro, que atravessam a freguesia de lés-a-lés. Sem eles, Gondar seria impensável. 
Por outro lado, o aproveitamento das vertentes desses dois leitos, como facilitadores da travessia da serra do Marão, colocou Gondar no centro das redes viárias que ligam Amarante a Vila-Real e a Mesão Frio, respetivamente. Mas, se esta posição estratégica trouxe grandes vantagens a Gondar, tem também os seus inconvenientes: as modernas auto-estradas, pela sua dimensão e estruturas que utilizam (pontes, viadutos…) são profundamente agressivas em relação ao território e ao meio ambiente em que se inserem. Cabe ao homem minimizar esses impactos.
Em nosso entender, a construção da A4 no troço que atravessa Gondar não acautelou minimamente esses impactos. A paisagem, o ecossistema e a qualidade de vida ficaram profundamente afetados.
Fizeram-se estudos de impacto ambiental? Foram tidos em conta no traçado da via? Não creio.
Haveria alternativas? Com certeza. Já vi serem alterados traçados de estradas por muito menos.
Não somos contra o progresso, mas nunca a qualquer preço.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

OUTROS TEMPOS, OUTRAS VIDAS…

Há dias, falávamos de Vila Seca, pela escrita de José Augusto Vieira, que se referia à olaria como ocupação principal dos habitantes desta localidade.

Feira no Largo de São Gonçalo - Amarante

Principal fonte de sustento de grande número de famílias, a olaria implicava não apenas o fabrico das peças, mas também a sua distribuição e venda nas feiras da região. As mulheres, com os cestos à cabeça cheios de louças, saíam de madrugada, a pé, por vezes para bem longe, enquanto os maridos continuavam, em casa, agarrados à roda do oleiro.
Na fotografia que vos apresentamos, de uma feira no Largo de São Gonçalo nos primórdios do século passado, está bem patente a presença de algumas mulheres, muito provavelmente de Vila Seca, que, sentadas nos cestos em que transportavam a louça, esperavam pelos seus clientes.
Outros tempos, outras estórias, outras vidas… 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

GONDAR EM “O MINHO PITTORESCO”

José Augusto Vieira, em "O Minho Pittoresco" (1887), descreve desta forma as suas passagens por Gondar:


Vila Seca (Gondar - Amarante)
“Depois de havermos descansado em Amarante, tendo neste ensejo ocasião de alugar cavalos que nos levassem à serra da Aboboreira e d’ahi ao concelho de Baião, partimos de madrugada, sendo-nos obsequioso guia e companheiro amável para essa excursão à Aboboreira, Sebastião Nogueira Soares, amigo a quem devo a correcção de muitas inexactidões que a princípio enxameavam por este capítulo.
(…) Neste contar da lenda (de Dona Loba) fomos atravessando Padronello, e o assombrado lugar do Cavalinho, de Gondar, onde fazem duas importantes feiras de gado, a 12 e a 28 de cada mez. À mesma freguesia pertence o lugar de Villa Secca ou Panelleiros, assim chamado por causa da profissão dos seus moradores, que se entregam aos trabalhos de olaria grosseira. Como prova lá se via o respirar das soengas ou fornos, espalhando o fumo pelas quebradas tristes do lugar.
Sobre a esquerda, em um plató afastado, vê-se a importante casa da Barroca, pertencente à família Cunha Brochado.” (pp. 432-433).

Ponte de Larm (Gondar - Amarante)

e noutra passagem:

"Sobre o rio Ovelha atravessamos depois a ponte de Larim, já dos domínios de Gondar, cuja matriz parochial, enegrecida pelo tempo, vemos à esquerda na encosta, meio escondida entre os carvalhos. É ella que representa o antigo convento de freiras beneditinas, a que se reuniam para os capítulos as freiras de Lufrei, visto nesses tempos não haver ainda a clausura rigorosa.
Foi na freguesia o Solar dos Gondares, procedente de Mem Gondar, companheiro do Conde D. Henrique, e d’ahi lhe veio o nome que ainda hoje conserva.” (pp. 429-430).

Vieira, José Augusto, "O MINHO PITTORESCO", Livraria de António Maria Pereira, Lisboa, 1887.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O “SALTO”

Rio Ovelha no Salto (Gondar - Amarante)

O lugar do “Salto” sempre foi conhecido pelos seus moinhos. Todavia, não é da indústria da moagem que hoje vou falar, mas do porquê do nome “SALTO”. Gosto da toponímia, de perceber a origem do nome das localidades, e, há dias, ao tirar esta fotografia num dos trechos mais bonitos do rio Ovelha, não me foi difícil concluir: apesar do caudal do rio ser significativo, mesmo no verão, ele aqui atravessa-se apenas com um salto. Toda a água do rio passa por uma estreita frecha entre dois blocos de granito e…, salta que já estás na outra margem.

Miguel Moreira